Friday, May 30, 2008

Massa de manobra

Uma das piores pragas de nossos dias é o gregarismo gratuito. Tu chega em um restaurante praticamente vazio, esboça aquele sorriso de êxtase pela possibilidade de algum silêncio, escolhe uma mesa posicionada de forma diametralmente oposta à única que está ocupada, e senta. Acende um cigarro e arranca a orelha - pois a área é para fumantes e leprosos. Joga a orelha no chão, dá umas baforadas graúdas e olha para o nada. Para o nada não, geralmente para o balcão em que as coloridas garrafas se perfilam e para o garçom, que enxuga os pratos com um pano engordurado, desanimado. O primeiro casal que entra - e já na porta estão discutindo sobre o bife à parmegiana - inevitavelmente vai sentar na mesa imediatamente ao lado da sua. Provavelmente, num último resquício de humanidade antes de imergirem nas páginas do cardápio, eles devem pensar: "olha que coitadinho, está tão sozinho". Jamais passará pela cabeça deles que talvez tu não precise de humanos naquele exato instante. Ao menos não de humanos tão próximos. A cara de viciado em heroína do garçom, a uns seis metros de distância, já é uma boa amostra do que a espécie é capaz de proporcionar. Mas agora que eles se apiedaram de ti não há jeito. Eles sentarão bem pertinho para trocarem opiniões sobre a estréia da novela, a classificação do Brasil no "invésti greidi" e o terremoto na China. Há apenas duas formas de espantá-los, os gregários gratuitos: começar a emitir sons guturais, rasgar as próprias roupas e derramar-se cerveja ou andar armado com um maçarico.

1 Comments:

Anonymous mardruck said...

Genial, Suellen.

4:11 PM  

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